O Papa Bento XVI, no início de seu pontificado, dirigiu aos fiéis uma encíclica chamada Deus Caritas Est, que providencialmente foi assinada na Solenidade do Natal do Senhor. Foi uma grande surpresa para muitos que conheciam a extensa a bibliografia acadêmica do então Cardeal Joseph Ratzinger e esperavam que seu primeiro documento fosse uma dissertação com complexo conteúdo dogmático-teológico. Em verdade, o novo Pontífice escolheu falar do Amor, que segue sendo o mandamento fundamental do cristianismo, e uma de suas primeiras afirmações nesse documento sempre me chamou a atenção:

” Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo.” (Deus Caritas Est, n. 1).

Ao ouvir o Evangelho deste Segundo Domingo da Páscoa, que por revelação divina à Santa Faustina e determinação de São João Paulo II é chamado de Domingo da Misericórdia, entendi a necessidade de São Tomé, e de todo o cristão, em fazer um encontro pessoal, próprio e decisivo com a pessoa de Jesus Ressuscitado. Isso porque, por mais que os testemunhos de terceiros sejam úteis, o assentimento completo da fé demanda um confronto direto com a verdade sobre si mesmo e com a Verdade que é Deus.

Ao ouvir o relato dos Apóstolos sobre a aparição de Jesus que aconteceu em sua ausência, São Tomé poderia ter fingido aceitação plena à narrativa, enganando a si mesmo e aos demais com uma aparência de bom moço. Mas de que adiantaria o esforço do fingimento? Não se pode enganar a Deus, que conhece o íntimo dos corações! Assim, por bem conhecer o Mestre com quem caminhou durante tanto tempo, São Tomé optou pela verdade e revelou o mais sincero desejo de seu coração: Eu quero acreditar, mas agora não consigo! Preciso tocá-lo!

São Tomé assumiu sua verdade e a Verdade que ele procurava foi de bom grado ao seu encontro. Cristo ressuscitado acolhe a incredulidade do seu Apóstolo, ama-o em sua verdade e lhe oferece o remédio necessário: “Estende a tua mão e coloca-a no meu lado” (Jo 20, 27). A humildade e a sinceridade de São Tomé deram-lhe o pleno acesso ao coração misericordioso de Jesus. Não foi São Tomé, igualmente, um bem-aventurado em sua experiência? Não seríamos melhores cristãos se, assim como São Tomé, aceitássemos humildemente as nossas limitações e confrontássemos a nossa verdade com a Verdade?

Bem-aventurado Tomé que acreditou.

Bem-aventurados são todos os que creem, não importa o caminho que eles atravessaram.

Bem-aventurados são os ausentes, que nos dão a oportunidade de darmos testemunho para eles quando regressarem.

Bem-aventurados os que não têm medo para entrar no colapso da dúvida, expressando aquilo que os tímidos têm medo de dizer.

Bem-aventurados os criadores de problemas, que acenam o divino cumprimento de “Paz” em nosso meio.

Bem-aventurados os que são corajosos o suficiente para terem os seus corações e mentes abertos; eles nos mostram um caminho de conversão.

[…]

Bem-aventurado é você, Tomé que acreditou, em quem nós frequentemente enxergamos o nosso irmão gêmeo: ausente, desafiador, exigente, consentindo, cheio de fé.

São Tomé, aquele que acreditou, rogai por nós!” (Alan Hommerding, Mestre em Música e Liturgia pela Universidade de Notre Dame, tradução livre, https://www.praytellblog.com/index.php/2020/04/17/blessed-believing-thomas/).

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Estudante de Teologia/ Catequista